Michael Jackson
A verdade é que há muito que não pensava sequer nele. Ofereceram-me o Thriller no meu último aniversário, mas há uns meses que não o punha a tocar. Vi uma reportagem há uns anos com ele em Neverland, arrepiou-me a forma como os seus filhos andavam na rua (de burqa) e de cada vez que lhe mirava a cara pensava que ia desfazer-se. Mas ontem, quando ao telefone me alertaram - o Michael Jackson teve um ataque cardíaco - não me lembrei de nada disso.
Colei-me à CNN - é inacreditável a pequenez dos nossos canais de notícias, salvou-se a SICN que foi a única a conseguir aguentar uma hora e meia de emissão minimamente decente - agarrei-me ao twitter e ao facebook e comecei a sentir-me estranha.
Um sentimento de perda, um aperto pequeno no coração, a incredulidade perante a morte de um homem que, havendo imortalidade, a ele lhe pertenceria de certeza. Comecei a procurar no youtube e encontrei Say, Say, Say, com Paul McCartney. Lembro-me tão bem daquele teledisco, do tempo em que os telediscos eram telediscos, lembrei-me do fato branco na capa do Thriller de vinil que a minha amiga Sandra tinha e com o qual ensaiávamos programas de rádio só com músicas do Michael Jackson, lembrei-me que cheguei a tentar imitar a coreografia de Bad com resultados fraquíssimos, é óbvio, e que sempre que ouço a música Heal the World me dá vontade de chorar, sabe-se lá porquê.
Tendemos sempre na morte a minimizar qualquer coisa de errado na vida das pessoas que afinal nunca conhecemos. Não faço ideia se era verdade que ele abusou de crianças, não faço ideia por que razão ele fez o que fez ao seu próprio corpo, não faço ideia se chegou alguma vez a ser feliz - talvez ali entre o Thriller e o Bad tenha sido.
Michael Jackson foi, como todos nós, o homem e as suas circunstâncias. Tantas que nunca conhecemos. Por isso nos recordamos daquilo que era visível e de certeza verdadeiro: o seu talento.
Mas porquê?

Quando vi a notícia na televisão já apanhei a coisa no fim e na verdade não cheguei a ver bem o cartaz. Procurei por aí à espera de encontrar uma fotografia obscena ao ponto de desatar a gritar ai jesus. Mas afinal o que vejo é um anúncio como tantos outros, apenas com uma diferença: não é um gajo rodeado de três mulheres, mas uma mulher rodeada de três jeitosos cavalheiros. Será por isso a indignação?????
Os pés na terra
Os pés arrastam-se sobre a terra fria, a chuva cai miúda. As ancas balançam e abre-se um sorriso ao ver-nos chegar. A pele pouco se enruga, é firme como as pernas que a sustentam. As mãos endurecidas mas meigas, as unhas sujas. O peito balança à medida que anda, o mesmo que alimentou as crias, bem junto ao coração que bate compassadamente.
Parada no meio da estrada, junto do muro de pedras que abanam mas nunca caem, sorri ao ver-nos chegar. Encosta-se ao cajado, ordena ao gado que entre nos currais. Convida para uma bucha.
A mesa está sempre posta, à espera que cheguemos. Senta-se numa das cabeceiras e olha para o homem grande que fica do lado oposto. Rei e rainha, pai e mãe.
Nascemos de dentro deles. Cinco primeiro, transformaram-se em oito, que deram depois mais oito, entretanto mais três, que fizeram nascer até agora outros dois.
Somos altos e fortes, ora morenos ora mais brancos, os pés grandes, os cabelos escuros outros já cinzentos, os olhos expressivos. Uns são mais parecidos com outros, sejam primas e primos, tios e netos, avós ou irmãos.
Semeamos, sachamos, colhemos, criamos, matamos, pomos na mesa. E sentamo-nos nela. Falamos alto, discutimos, dizemos piadas, e calamo-nos quando o Pai conta mais uma história com direito a moral no fim, ou quando a Mãe balbucia uma canção dos tempos em que o sol ditava o correr dos dias.
Quando nos queremos chamar gritamos muito alto os nossos nomes. Tia Luz e Tio António, Maria Alice, Mino, Luís, Rita, Alexandre, Jaime, Maria do Céu, Celso, Lena, David, Raquel, Carlo, Nicola, Zé, Ana, Cristina, Celso, Manel, Fátima, Ana Catarina, Daniela.
O som ecoa pelo tanque, pela mina, pelo ribeiro, pelo moinho de água, pelos campos semeados, pelos currais dos animais, pelo galinheiro, pela eira, vai até ao alambique e dá meia volta de regresso a casa. Sempre que nos chamarmos vamos ouvir os nossos nomes de volta. A terra que nos fez nascer não nos esquece. E é isto que significa ter uma família.
Estou a escrever isto ainda sem te ver deitada no teu quarto. Sem vida. Acho que deves estar no teu quarto. Ficas em casa, por agora. Depois vais para outro sítio, porque não te podemos deixar aí, para falarmos contigo, darmos-te um beijo na pele lisa e firme, ainda que com mais de noventa anos.
Nunca falámos muito, nunca foste mulher de grandes palavras, nem de beijos, nem de colos. Isso era com o avô. Tu eras a mulher de ferro lá de casa. Andavas descalça pela rua, fosse verão ou inverno, com os teus pés rijos e com joanetes na calçada fria. Tratavas dos animais, punhas as mãos em panelas a ferver e nunca te queimavas. Era com essas mãos que amassavas o pão, todas as semanas. Ensinaste-me a pôr-lhes o sinal da cruz antes de se meterem no grande forno de lenha.
Trazias sempre um lenço na cabeça e o cabelo apanhado. Um dia vi-te a penteá-lo. Estava solto, era cinzento e muito comprido. Penteavas-te com uma travessa que depois servia para o prender de novo.
Íamos juntas ao ribeiro lavar as tripas do porco acabado de matar. Dizias-me sempre para não mexer no lume, que fazia xixi na cama... Eu a brincar com o fogo e tu de volta dos tachos e das panelas de água quente, da tua sopa de feijão, da tua aletria sempre doce.
Semeávamos batatas, davas-me uma navalha para vindimar, abanavas a cabeça quando eu insistia para pisar o vinho. Não é coisa de mulheres, dizias tu.
Pariste os teus cinco filhos em casa. Três rapazes e duas raparigas. Todos puderam estudar. Pariste-os com valentia de certeza, com a mesma valentia com que todos os dias caminhavas pelo campo, escaldavas as mãos e não ligavas às urtigas que te passavam pelas pernas.
Eras uma mulher da terra, uma força da Natureza. Eras a minha avó. Uma luz.
A&P
A notícia começa a espalhar-se pelos amigos. Sabes que estão a separar-se? Há sempre algum espanto, um sentimento de tristeza, mas no fundo de tudo há uma resignação, como se sempre soubéssemos que ia acontecer, já não espanta ninguém. E depois a pergunta. Ainda perguntamos, sim. O que é que aconteceu? E as respostas vêm cada vez mais vagas. Sabes como é, já não andavam bem, as rotinas, as coisas arrefecem. Raramente surge uma revelação bombástica. Olha, ele descobriu que ela tinha um amante há dois anos. Olha, ele afinal é gay. Nada disso. E dizemos que sofrem. Estão a sofrer, gostam muito um do outro. Mas já não dava. Já não dava. E os filhos pelo meio, e as casas separadas e os amigos a dizerem que haverá ainda tanto tempo para o amor. Que é hora de alguma diversão, talvez um pouco de sexo descomprometido. Arejar as ideias.
Mas todos sabemos que afinal havemos de voltar é a procurar alguém com quem partilhar mais do que uma cama, mais do que um cinema uma vez por semana, mais do que uma dezena de sms's picantes. E quando isso acontecer, voltaremos a achar quente e reconfortante e sereno e completo o verdadeiro amor. Mas nunca sabemos se voltará a chegar o dia em que recebemos o telefonema a dizer. Separaram-se. E encolheremos os ombros e faremos jantares e diremos palavras que julgamos sensatas para apaziguar as dores.
Por quanto tempo aguentaremos tanta insatisfação? Por quantos dias mais esperaremos pelos amores perfeitos sempre apaixonados? E se eles de facto existirem? Sobreviveremos?